No contexto da investigação académica em Portugal — sobretudo em áreas como educação, psicologia, sociologia ou saúde — as entrevistas têm ganho cada vez mais destaque como método fundamental para compreender experiências humanas em profundidade.
Ao contrário dos questionários estatísticos, a entrevista permite escutar o discurso do outro com liberdade e empatia, revelando significados, motivações e emoções que, de outra forma, permaneceriam ocultos. Neste artigo, explicamos como funcionam as entrevistas de investigação, os seus tipos e como aplicá-las com rigor científico.
O que é uma entrevista de investigação?
A entrevista de investigação é uma técnica de recolha de dados baseada no diálogo entre o investigador e um ou mais participantes. Trata-se de uma interação planeada e orientada para responder a uma pergunta de investigação através do discurso dos sujeitos envolvidos no fenómeno estudado.
É particularmente relevante em dissertações e teses qualitativas, onde a compreensão do «como» e «porquê» dos comportamentos sociais é mais importante do que a sua medição.
🎯 Exemplo: num estudo sobre professores em exaustão emocional, a entrevista pode revelar fatores invisíveis num inquérito, como a falta de reconhecimento ou a pressão institucional.

Por que razão se utiliza em investigação qualitativa?
As entrevistas qualitativas são muito utilizadas em universidades portuguesas por oferecerem:
- Profundidade analítica: permitem explorar sentidos subjetivos.
- Flexibilidade metodológica: adaptam-se ao entrevistado e contexto.
- Acesso a narrativas pessoais que não emergem em métodos quantitativos.
- Valor explicativo: ajudam a interpretar fenómenos sociais, culturais ou educacionais.
Tipologias de entrevista usadas em contextos académicos
🔹 Entrevista aberta (ou livre)
- Não segue um guião rígido.
- Baseia-se numa conversa espontânea com foco no tema central.
- Muito usada em etnografias e estudos exploratórios.
🔹 Entrevista semi-diretiva
- Tem uma grelha de tópicos ou perguntas, mas permite adaptar a ordem ou aprofundar aspetos inesperados.
- É o formato mais escolhido em mestrados e doutoramentos qualitativos em Portugal.
🔹 Entrevista estruturada
- Todas as perguntas são fechadas, com sequência fixa.
- É mais comum em investigações quantitativas e grandes inquéritos.
| Tipo de Entrevista | Grau de Estrutura | Aplicações Comuns |
|---|---|---|
| Estruturada | Alta | Estudos quantitativos, inquéritos populacionais |
| Semi-diretiva (semiestruturada) | Média | Dissertações qualitativas, estudos de caso |
| Aberta ou livre | Baixa | Investigações exploratórias, abordagens fenomenológicas |
Etapas para preparar uma entrevista de investigação
1. Clarifica o objetivo específico
Antes de criar perguntas, define o que procuras saber com a entrevista.
Exemplo: «Identificar perceções dos profissionais de saúde sobre o impacto da pandemia no seu equilíbrio emocional.»
2. Define o tipo de entrevista adequado
- Abertas → para estudos exploratórios
- Semi-diretivas → maior equilíbrio entre foco e liberdade
- Estruturadas → em casos de estudos comparativos ou amostras grandes
3. Redige o guião de entrevista
Cria entre 6 a 10 perguntas centrais, respeitando as seguintes boas práticas:
✅ Devem ser abertas, claras e sem juízos de valor
✅ Começa com perguntas simples/contextuais
✅ Aprofunda gradualmente para questões mais reflexivas
✅ Deixa espaço para o entrevistado falar livremente
❌ “O senhor considera-se esgotado pelo trabalho, certo?”
✅ “Pode descrever como se tem sentido no contexto laboral nos últimos meses?”
4. Testa a versão piloto
Aplica a entrevista a 1 ou 2 participantes antes do estudo principal para avaliar:
- Clareza das perguntas
- Duração total
- Compreensão e naturalidade na conversa
5. Prepara o material final
Inclui:
- Versão impressa e digital do guião
- Espaço para notas de campo
- Formulário de consentimento informado (obrigatório pelo RGPD)
Aplicação da entrevista no terreno
- Apresenta-te de forma informal e ética.
- Explica o propósito da entrevista de forma simples.
- Garante o anonimato e confidencialidade dos dados.
- Inicia com perguntas leves para gerar confiança.
- Mantém uma postura escutante, sem julgar nem interromper.
- Regista a entrevista com autorização expressa.
- Tira notas sobre expressões não verbais e emoções.
- No final, agradece e oferece a possibilidade de consulta dos resultados.
Exemplo real de guião (tema: bem-estar docente)
Introdução
Obrigado por aceitar participar. Esta entrevista pretende compreender melhor como os docentes vivem e lidam com situações de stresse ou esgotamento.
Perguntas principais
- Pode partilhar um pouco da sua trajetória enquanto docente?
- Em que momento começou a sentir sinais de exaustão?
- Como descreveria os efeitos físicos e psicológicos vividos?
- Que fatores contribuíram mais para esse estado?
- Que tipo de apoio teve por parte da escola?
- O que acha que poderia ser feito para evitar estas situações?
- Que aprendizagens retira de toda esta experiência?
Encerramento
Haverá algo mais que queira partilhar antes de terminarmos?
FAQ – Perguntas frequentes
Uma entrevista pode substituir um questionário?
Depende do objetivo. Se procuras dados numéricos e generalizáveis, o questionário é mais adequado. Mas se procuras compreender em profundidade experiências individuais, a entrevista é insubstituível.
Quantas entrevistas devo fazer?
Em média, para estudos qualitativos em dissertações, entre 6 e 12 entrevistas são suficientes para alcançar saturação temática.
Preciso de autorização da universidade?
Sim. Em Portugal, todas as entrevistas que envolvem dados pessoais exigem aprovação ética e consentimento informado do participante.
Se estás a desenvolver uma dissertação de mestrado, tese de doutoramento ou trabalho final de curso, e precisas de ajuda para estruturar ou aplicar entrevistas de investigação de forma adequada, no Gabinete de Estudos podemos apoiar-te com acompanhamento profissional e orientação metodológica.


